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Apreciando a sétima arte em palavras.

Crítica: “Um Homem Sério” (A Serious Man), 2009

SeriousMan04

—Nota: 5/5 — (Spoilers) —

Com certeza um dos filmes mais filosóficos dos geniais irmãos Ethan Coen e Joel Coen (responsáveis por filmes como Fargo, Onde Os Fracos Não Tem Vez e O Grande Lebowski), Um Homem Sério tem toda a mistura de drama, tragédia e comédia características dos cineastas.

Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) é um professor de física que vive em uma comunidade judia com sua família. Ele leva uma vida tranquila e aparentemente estável, mas de repente seu mundo começa a cair ao seu redor. Sua esposa (Sari Lennick) pede o divórcio e confessa já estar fazendo planos para se casar com Sy Ableman (Fred Melamed). Larry estava a ponto de receber sua Tenure (uma espécie status recebido pelos professores que implica em maior estabilidade profissional), mas sua aplicação é ameaçada por cartas anônimas que o difamam. Um aluno tenta o subornar e depois o chantageia para que não seja reprovado. A partir destes eventos, várias outras desgraças começam a surgir. Larry, um homem direito, não consegue entender o porque dessas coisas estarem acontecendo. Enquanto tenta sobreviver ao caos, ele busca respostas.

Vendo por alto, a história parece não ter muito a nos oferecer, mas o filme é recheado de questionamentos sobre destino, carma e religião (mais precisamente, negando a influência destes três no mundo). Larry tenta compreender a causa de seus problemas e busca falar com os rabinos da comunidade, o que resulta em conselhos vazios. Em sua visita ao rabino Nachter (George Wyner), lhe é contada uma história enigmática e promissora, mas acaba se transformando em uma fábula totalmente sem conclusão. E está é a maior ideia por trás de Um Homem Sério e vários outros filmes dos irmãos Coen. O mundo é caótico, suas ações podem influenciar sua vida, mas no final das contas, o caos reinará e eventos indecifráveis acontecerão sem nenhum motivo aparente. A própria abertura do filme é um enigma por si só. Uma espécia de fabula judia sobre um homem que convida outro para sua casa, mas sua mulher tem certeza absoluta que o visitante é uma espécie de morto-vivo. Aparentemente, nenhuma relação com a história de Larry. Talvez apenas por se tratar de uma espécie de maldição quase inescapável. Antes mesmo dessa pequena história, no primeiro frame do filme temos uma frase: “receba com simplicidade tudo que acontece à você”. À primeira vista parece uma frase positiva e que nos diz para sermos humildes e otimistas com relação à vida, mas com o decorrer do filme notamos que o que ela realmente nos diz é “receba com simplicidade tudo que acontece à você, pois não há nenhum motivo maior por detrás destes acontecimentos”. Em outro momento do filme, Larry está dando aula durante um sonho e fala sobre o Princípio da Incerteza, dizendo que nunca realmente somos capazes de saber o que está acontecendo e por isso não devemos nos preocupar.

Mas a questão é, Larry se preocupa. Claro, pois sua vida que está indo por água abaixo. Ainda assim, temos momentos positivos e de esperança no filme, mesmo que às vezes recheados de sarcasmo e comicidade. Você pode acusar Larry de ser apenas vítima de si próprio, um homem que simplesmente não consegue segurar as rédeas da sua vida. Mas lembrem-se que antes da história começar, Larry possuía uma vida estável e por isso o caos que surge em todos os aspectos da sua vida, sejam pessoais, familiares ou profissionais, o deixam perplexo e quase sem ação, mas isso não o impede de buscar as causas de seus problemas para tentar consertá-los. E aí está a grande questão do filme. Não há causas. Não há motivo. Se nossos personagens fossem desprovidos de preocupação e de motivação, poderíamos até dizer que se trata de um filme totalmente niilista.

Em vários momentos o filme aponta para essa falta de significado nos eventos da vida. Larry e Sy Ableman sofrem acidentes automobilísticos exatamente ao mesmo tempo. A história totalmente sem conclusão do rabino Nachner. E o próprio final do filme, que para mim é simplesmente genial. No desfecho, Larry Gopnik afundando ainda mais nas dívidas com os advogados, decide aceitar a propina e muda a nota de seu aluno, afinal, ser um cara direito não o estava ajudando em nada. Mas, no exato momento em que ele muda a nota em sua caderneta de F para C, seu telefone toca e do outro lado da linha está o seu médico dizendo que eles devem conversar sobre o resultado dos seus últimos exames. Isso tudo, ao mesmo tempo em que um tornado chega à cidade, representando o caos na sua mais pura forma.

Um Homem Sério possui muitos outros momentos que nos contam algo por si só ou como um todo, como a relação de Larry com seu irmão Arthur (Richard Kind), sua relação com seus vizinhos ou até cenas que apesar de parecerem simples ficam na nossa mente como sua subida no teto de sua casa para mexer na antena de TV. O filme ainda conta com uma ótima fotografia, trabalho da parceria dos Coen com o cinematógrafo Roger Deakins, e uma trilha sonora que contribui enormemente à história, do compositor Carter Burwell. A incrível atuação de Michael Stuhlberg também é um fator decisivo para a qualidade do filme, impedindo que seu personagem seja apenas mais um “azarado” do cinema.

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